Aquela dose generosa de protetor que você passa antes de se expor ao sol pode não blindar a pele como esperado. Calma: é para continuar lançando mão do produto, só que um elemento aparentemente oculto despontou nesse enredo e tem gerado preocupação. Oculto, não. Digamos que ele é bem visível.

Uma investigação do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) revela que outro tipo de radiação solar, bem menos estudada e contra a qual a maioria dos filtros não consegue atuar, é capaz de danificar o tecido cutâneo. Trata-se da luz visível, que, como o nome indica, tem ondas que podemos enxergar – ao contrário dos raios UVA e UVB.

“Nas células da pele, essa radiação gera lesões que, no longo prazo, podem sofrer uma transformação maligna”, conta o professor da USP e líder da pesquisa Maurício da Silva Baptista. A descoberta, inédita, sobre esse potencial cancerígeno ajudaria a explicar o crescimento na incidência de tumores de pele, apesar das fortes campanhas de alerta por aí.

“Casos de melanoma, o mais letal dos cânceres de pele, crescem de 3 a 4% a cada ano”, lamenta o médico Hélio Miot, diretor da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Os outros tipos também seguem avançando.

O estudo da USP desvendou que o efeito prejudicial da luz visível, que corresponde a 45% da energia solar que alcança o corpo, é multiplicado devido à associação com os raios UVA. Combinadas, as duas radiações aumentam na pele a produção de lipofuscina, o pigmento do envelhecimento – e isso acontece independentemente da cor da cútis.

O inquietante é que hoje não existem filtros solares capazes de interceptar a luz visível. Especialistas afirmam, porém, que não é caso para pânico. “Essa radiação é menos energética e perigosa que a ultravioleta. O UVA, por exemplo, é mil vezes mais potente no que se refere aos danos”, pondera Miot.

Na escala de preocupação dos experts, sempre figurou no topo a fração UVB. Ela é a mais tóxica à pele, mesmo representando apenas 5% da radiação que atinge o corpo e tendo danos mais restritos às camadas cutâneas superficiais. É o raio solar com maior probabilidade de causar um câncer no médio prazo.

“Há 50 anos se sabe que o UVB promove o envelhecimento e afeta o DNA das células da pele, sem contar que ainda prejudica estruturas dos olhos e favorece a catarata“, contextualiza Miot, que também é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O UVA seria o segundo colocado em termos de lesões, seguido pela luz visível.

Ainda restam mais perguntas do que respostas quanto aos efeitos dessa radiação – inclusive sua parcela de culpa sobre o câncer de pele. A luz visível, aliás, também vem de lâmpadas, TVs e celulares, só que as fontes artificiais não seriam maléficas à saúde. A versão solar, potencialmente perigosa, é bloqueada com uma barreira física, isto é, roupas, chapéus, óculos escuros e cremes coloridos… “Os filtros solares infantis conferem a proteção necessária contra ela, mas não são utilizados no corpo todo”, observa Baptista.

A dermatologista Flávia Addor, da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), entidade que reúne os fabricantes, explica que, atualmente, os cremes capazes de barrar a luz visível miram apenas o rosto e foram desenvolvidos para prevenir manchas e marcas do envelhecimento, duas consequências já conhecidas dessa espécie de radiação. “Quem usa é aquela pessoa que precisa tratar esse problema em particular”, nota.

De fato, ainda não há produtos voltados para o corpo todo e focados em deter as repercussões mais profundas e nefastas na pele, como revelado no trabalho da USP. “Não conheço nenhum composto que atue diretamente contra esse tipo de dano”, diz Flávia.

Para suprir essa lacuna, a equipe de Baptista criou e patenteou uma fórmula que utiliza nanotecnologia e um filme finíssimo de melanina para o corpo inteiro contra as três radiações, UVA, UVB e luz visível. Agora o químico busca empresas interessadas em investir em sua solução – e já tem encontros marcados com integrantes da indústria.

Bronze com cautela

Enquanto novos produtos que também nos defendam da luz visível não chegam ao mercado, continua de pé a recomendação de usar sempre o protetor tradicional, maneirar na exposição nos horários de maior incidência do sol e usar, se for o caso, chapéu e camiseta.

Ainda assim, outro ponto polêmico pega carona na história: se o uso dos filtros atrapalharia a síntese de vitamina D, ativada sobretudo pelos raios UVB. Levantamentos mostram uma queda constante nos níveis da substância na população, o que afetaria a saúde óssea e a imunidade em geral.

“É um erro nunca se expor ao sol, uma vez que há várias funções da pele que dependem da incidência direta dos raios solares”, afirma Baptista. Para ele, permanecer entre 20 e 30 minutos com boa parte do corpo descoberta umas três vezes por semana já ajudaria a bater as metas da vitamina.

O assunto, porém, é controverso. “Tenho uma preocupação brutal com a vitamina D, mas pesquisas indicam que a quantidade de radiação solar necessária para a síntese é muito baixa”, argumenta Miot. Segundo ele, a SBD está concluindo um estudo sobre o tema. “Fizemos testes para medir a vitamina D após a exposição ao sol com e sem filtro solar e houve aumento na produção mesmo com o uso do produto”, adianta.

A entidade incentiva a exposição direta de pernas, costas, barriga ou palma das mãos por cinco ou dez minutos diários para dar uma recarregada em nossos níveis – é prudente tomar cuidado com os braços e o rosto. Nesse toma lá, dá cá entre os efeitos positivos e negativos do sol, os achados sobre a luz visível só vêm assinar embaixo de uma clássica recomendação: desfrute dele com bom senso.

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