Entenda o parto humanizado

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Na água, na maternidade ou no centro cirúrgico, o seu parto deve ser da forma como você quer (e sua saúde permite).

O que significa um parto humanizado?
Há muita polêmica sobre o que é um parto humanizado, mas a maioria aceita que é aquele em que as decisões da mulher são levadas muito mais em conta do que em um parto convencional. Isso significa deixar a natureza fazer o seu trabalho, realizar um mínimo de intervenções médicas e apenas as autorizadas pela gestante – sempre levando em consideração a segurança e saúde dela e do bebê. Para isso acontecer, é preciso que ambos estejam bem e saudáveis, sem nada que exija cuidados extras. “Não importa se ele ocorre na cama, na água, em casa, no hospital. Em um parto humanizado, a ação é toda da mulher que segue o processo fisiológico do parto. O médico fica ali apenas como um expectador e só interfere se ocorrer algum problema”, explica a doula Ana Cristina Duarte, diretora do Gama (Grupo de Apoio a Maternidade Ativa). “Quando você humaniza um parto, a grávida fica mais livre para escolher o que a faz se sentir melhor. Pode andar durante o trabalho de parto e escolher quem quer ao seu lado, por exemplo”, diz a enfermeira obstétrica Helen Mendes, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Todo parto normal é humanizado?
Não, necessariamente. “Basta observar a lista de potenciais procedimentos que podem ser feitos em um parto normal, e não em um humanizado, para perceber a diferença”, explica o obstetra Abner Lobão, da Universidade Federal de São Paulo. Entre eles, estão a anestesia/analgesia, múltiplos exames vaginais, monitoramento permanente dos batimentos cardíacos fetais e da contração uterina por meio eletrônico, posição fixa e não anatômica da mãe durante o processo, jejum, o uso do soro e de medicamentos para controlar a contração (para aumentar ou diminuir), episiotomia, uso de fórceps, manipulação do bebê (aspiração mecanizada de vias aéreas, entre outras), luz e ruídos excessivos, limitação de movimentação, “lavagem” intestinal, depilação da região genital. Depois de tantas intervenções, fica difícil atribuir o adjetivo humanizado ao ato de dar à luz. Mas, o mais preocupante é que, em muitos hospitais, tais procedimentos se tornaram de rotina, independentemente de serem necessários ou não, e são realizados sem consulta prévia à grávida ou a seus familiares. Daí a tendência das mulheres exigirem um parto mais humanizado.

Uma cesárea pode ser um parto humanizado?
Ela pode ser mais humana, como contei no meu relato. Não chega a ser um verdadeiro parto humanizado, pois é considerada uma cirurgia de médio porte. Mas pequenas mudanças podem deixá-la melhor, como manter o companheiro ou acompanhante na sala, controlar, em parte, o ruído e a luz, diminuir a manipulação do bebê, deixar o pai cortar o cordão umbilical e o filho mamar tão logo nasça. Atenção: nada disso é válido caso a cesárea seja feita desnecessariamente, já que essa atitude é totalmente contrária ao bem-estar da mãe e do bebê, como prioriza o parto humanizado.

Como uma mulher se prepara para um parto humanizado?
O primeiro passo é fazer um bom pré-natal para saber se a sua saúde e a do bebê estão bem – só assim é possível realizar um parto sem intervenções. Procurar um obstetra que goste e saiba conduzir um parto desta forma é o segundo passo. Converse com o médico que lhe atende e com o qual você tem afinidade sobre suas escolhas. Caso seja necessário, troque de médico. Procurar ajuda em grupos de apoio ao parto humanizado aumenta as chances de encontrar um profissional com o perfil que você deseja. Sem estrutura mínima para este tipo de parto, e sem um obstetra e sua equipe motivados e treinados para fazê-lo, não é possível alcançar plenamente o objetivo.

E o mais importante: “A gestante precisa querer um parto humanizado, com todas as suas emoções e desconfortos. Não deve escolher isso apenas porque está na moda”, alerta o obstetra Lobão. Por isso, é importante também conversar com quem já teve essa experiência.

Quais as vantagens de um parto humanizado?
Existem muitas vantagens para a mãe e filho. Como não há necessidade de recuperação da anestesia, nem de uso de medicamentos, nem da episiotomia, além do maior conforto emocional, a tendência é de um restabelecimento mais rápido, além de uma percepção mais positiva da experiência do parto. Para os bebês, as vantagens não estão completamente claras em longo prazo, mas sabe-se que com menos stress e uso de drogas/medicamentos envolvidos no processo, o risco de complicações tende a diminuir. Além disso, teoricamente, ele nasce de uma forma mais tranquila e a amamentação acontece ainda na sala de parto, o que promove o vínculo entre mãe e bebê, tão importante nesse começo de vida.

Um parto desumanizado
A história da veterinária Alessandra Caprara, 31 anos, mostra como nem sempre um parto normal é humanizado, ou mesmo tranquilo. O nascimento do seu primeiro filho tinha tudo para ser o mais natural possível e acabou como um filme de terror:

“São Paulo, 2006. Cheguei ao hospital com 10 centímetros de dilatação, avisando que o bebê já estava nascendo. A enfermeira da recepção confirmou com um exame de toque e me mandou para dentro. Fui recepcionada por outras enfermeiras que me colocaram numa sala de espera. Eu avisava que o bebê estava nascendo e elas diziam: ‘Calma mãezinha, você precisa tomar penicilina, está escrito no seu pré-natal’. E eu sentia o meu bebê descer pelo canal de parto… Então, outra enfermeira fez novamente o exame de toque e percebeu que eu dizia a verdade. Suspendeu a penicilina, me colocou em uma sala e pediu que eu aguardasse. Depois veio a anestesista e ordenou: ‘mãezinha, fica de indiozinho e não se mexa’. Eu, com contrações por minuto, rezava para que não viesse mais nenhuma. O obstetra não disse nada, colocou os panos, passou algo gelado em mim, me cortou e meu bebê saiu. Trouxeram ele para mim e logo depois levaram embora. Não vi mais meu marido, nem sei quando ele entrou ali. Terminei sozinha, em um quarto, sem nenhuma explicação.”

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