Para o trabalho, publicado no respeitado jornal da Associação Médica Americana, os especialistas recrutaram dois grupos de pacientes com refluxo do tipo laringofaríngeo (quando os sintomas também atingem a garganta).

Um deles foi tratado da forma tradicional, com remédios e recomendações gerais de prevenção às crises. Já a outra turma só adotou uma dieta baseada primordialmente em alimentos de origem vegetal e consumiu água alcalina, que tem pH mais básico do que a mineral.

O desfecho da experiência surpreendeu: 54% das pessoas que seguiram o tratamento medicamentoso tiveram redução significativa no teste que avalia a severidade dos sintomas de refluxo, mesmo benefício atingido por 62% dos participantes que mudaram o cardápio diário.

“Nosso estudo mostra que a adoção da dieta de estilo mediterrâneo parece funcionar tão bem, ou até melhor, do que a terapia medicamentosa tradicional. Além disso, tem a vantagem de não trazer riscos colaterais”, conta à SAÚDE o líder da pesquisa, Craig Zalvan, chefe do Departamento de Otorrinolaringologia do Hospital Phelps.

Olha que os ganhos não param aí. Os ajustes à mesa também contribuíram para a perda de peso – alguns indivíduos enxugaram quatro quilos em algumas semanas – e melhora em outras condições crônicas, como diabetes e problemas cardiovasculares. “Nossa sugestão é que, antes de tentar a abordagem com remédios, os médicos deveriam tentar mudanças na alimentação dos pacientes”, aconselha Zalvan.

Por dentro da alimentação contra o refluxo

Não dá para dizer que os voluntários do experimento americano seguiram uma dieta mediterrânea clássica. Ora, 90% da alimentação deles era composta de ingredientes de origem vegetal. Ou seja, os pescados, grandes estrelas do cardápio original, praticamente saíram de cena.

Zalvan explica que a orientação tem a ver com a pepsina, uma enzima digestiva. Quando ingerimos proteínas de fontes animais – como os peixes – e alguns tipos de carboidratos refinados, a exemplo de pães e massas, a pepsina começa a agir, tornando nosso estômago mais ácido. Aí, quem tem refluxo sofre o baque. Por isso, o especialista recomenda parcimônia no consumo de carnes, com porções de 80 a 100 gramas em duas ou três refeições por semana.

Leites, queijos e companhia receberam uma plaquinha de alerta dos estudiosos pelos mesmos motivos das carnes em geral. No entanto, a nutricionista Cintya Bassi, do Hospital e Maternidade São Cristóvão, em São Paulo, ressalta que não se pode excluir esses alimentos da dieta sem o acompanhamento de um profissional de saúde – isso porque eles concentram nutrientes essenciais, como cálcio e vitaminas do complexo B.

“Além de estar atento ao que se consome e os sintomas que surgem daí, é preciso procurar um especialista para fazer a correta reeducação alimentar”, orienta. Em vez de total exclusão, ela sugere a alternância com ingredientes mais leves, como tofu, iogurte e kefir.

Outra recomendação do trabalho de Zalvan que foi recebida com um pé atrás é a ingestão da tal água alcalina. Modificada por meio de filtros específicos à venda em supermercados, ela nada mais é do que uma água com pH mais básico do que a mineral e a encanada. Além disso, possui baixos níveis de cloro, flúor e metais pesados. A prerrogativa para usá-la é que equilibraria o pH sanguíneo, controlando a acidez do estômago.

No entanto, o consumo excessivo pode desencadear um efeito rebote em quem sofre com refluxo, assim como acontece ao se utilizar muito antiácido. “Nesses casos, os sintomas melhoram momentaneamente, mas o estômago pode entender que está em desequilíbrio e, depois de um tempo, começar a produzir mais acidez”, explica Herbella. Quando balanceados, os ácidos presentes no aparelho digestivo não atormentam. Pelo contrário: favorecem a posterior absorção de alguns nutrientes, como o ferro, e fritam as bactérias nocivas que engolimos por aí.

No resumo da ópera, o primordial mesmo é tentar caprichar no consumo de alimentos integrais e de origem vegetal, carregados de fibras, vitaminas e minerais. Quanto mais variedade no prato, maior a chance de o corpo responder de forma amigável. “Frutas, legumes, verduras e fontes de gorduras boas, como azeite e oleaginosas, favorecem o funcionamento do trato gastrointestinal”, justifica Cintya. “Desde a digestão até a prevenção da constipação, passando pelo aumento de bactérias boas e equilíbrio da acidez estomacal”, faz questão de detalhar a nutricionista.

Quando o estômago está pegando fogo, alguns alimentos trazem alívio praticamente imediato. É o caso do arroz integral, que reduz a secreção dos ácidos. Já a beterraba e o espinafre apresentam betaína, composto que quebra gorduras e facilita a absorção de proteínas.

Se der para adicionar toques de cúrcuma e gengibre ao prato, melhor ainda. Esses ingredientes inibem mecanismos anti-inflamatórios e fortalecem o sistema imunológico. “Tomar chás de hortelã e espinheira-santa logo após o almoço facilita a digestão e estimula o fluxo biliar”, indica, ainda, a médica Marcela Voris, da Associação Brasileira de Nutrologia.

O que piora a queimação

Na prática, a dieta certinha para lidar com as chamas provocadas pelo refluxo varia de pessoa para pessoa – depende dos tipos de sintomas, estilo de vida e por aí vai. Agora, o segredo não é sair incluindo ingredientes especiais em cada refeição. “O principal fator de piora da doença é o abuso à mesa, comportamento observado na maioria dos pacientes que chega ao consultório”, informa Reinaldo Martins de Oliveira Neto, gastroenterologista do Hospital Samaritano, na capital paulista.

Mas não é só o abuso que preocupa. Determinados alimentos exigem atenção, porque podem fazer um mal danado a quem já pena com azia e queimação. Falamos daqueles itens extremamente gordurosos (como frituras), condimentados, processados e carregados de sódio e açúcar. Além de se transformarem em um monte de calorias no nosso organismo, essas comidas despertam a flatulência, irritam a mucosa gástrica e afrouxam a válvula do esôfago.

Para os amantes do cafezinho e do chocolate, as notícias não são tão animadoras. Esses alimentos contêm cafeína, que relaxa os músculos do esôfago, o que permitiria a volta do conteúdo gástrico. “Para pessoas saudáveis, o recomendado é beber até três xícaras de café pequenas por dia. Já quem tem refluxo deveria excluir a bebida e, com o auxílio do médico, reintroduzi-la em pequenas doses, de acordo com o controle da doença e a tolerância individual”, recomenda Cintya.

As falhas na válvula esofágica também são provocadas pelo consumo excessivo de álcool e pelo tabagismo. Portanto, a chegada do refluxo é o momento ideal para afastar de vez os maus hábitos.

Há mais comportamentos que merecem ser revistos quando a refeição não para quieta. Montar pratos imensos e logo depois se entregar ao sono é um bom exemplo. Isso faz com que o estômago trabalhe devagar e, assim, demore para se esvaziar. Pior: a situação atravanca a descida da comida. Daí um conselho básico: “Espere duas horas antes de ir para a cama ou, se não tiver esse tempo, durma com o tronco mais inclinado”, diz Martins.

Se tem outra coisa que serve como fagulha nesse cenário é o sedentarismo. Afinal, ficar parado atrapalha todo o nosso organismo, incluindo o sistema gastrointestinal. Fora isso, movimentar o corpo é daquelas orientações básicas para eliminar os quilos extras – e já há farta evidência de que isso ajuda a reduzir o risco e as crises de refluxo. Mexer tanto na rotina pode parecer difícil a princípio. Mas o esforço vale a pena. Para conter um incêndio, definitivamente não dá para apostar só em um copinho d’água.

5 alimentos antirrefluxo

Frutas: são ricas em fibras e outras substâncias amigas do estômago. Dê preferência às menos ácidas, como banana, maçã e mamão.

Leguminosas: grão-de-bico, feijão e ervilha têm poucas calorias e muita fibra. Se causarem desconforto, fale com o nutricionista.

Verduras: melhoram a digestão, equilibram a acidez e incentivam a proliferação de bactérias boas.

Oleaginosas: nozes e castanhas são fontes de gorduras boas. Mas consuma sem exageros: cerca de 30 gramas diários.

Água alcalina: tem pH mais básico e, por isso, controla a acidez. Só não exagere – caso contrário, pode ocorrer um efeito rebote.

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