Tem dia em que você abre seu armário e resolve fazer aquela faxina: tira as roupas que não usa mais, joga fora lembranças do ex-namorado, pensa em um novo destino para objetos que só ocupam espaço.

Depois de se desfazer de tanta coisa que não fazia mais sentido para você, vem uma sensação de leveza, de recomeço e de energia renovada. Seria bom se a praticidade de se desapegar de coisas materiais batesse à porta da nossa casinha emocional. Mas não é simples assim.

Muitas vezes, sentimos que a relação desandou — seja um namoro, uma amizade, seja no trabalho —, que tem algo incomodando ou nos deixando infeliz, e sabemos que o certo seria colocar um ponto final. Mas como resolver esse nó? “A gente nasce se desprendendo.

A vida inteira é um aprendizado de juntar e se separar”, diz a terapeuta Tai Castilho, fundadora do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo. Para te ajudar na missão de reavaliar seus vínculos e criar relações mais saudáveis, ouvimos quatro especialistas:

No amor

O frio na barriga de encontrar o boy passou e fazer planos para um futuro juntos já não é tão emocionante. Você sente que a relação está morna, mas como identificar se é hora de cada um ir para o seu lado? “Um termômetro é quando acaba a sedução”, diz a psicanalista e coaching afetiva Patricia Camargo.

Não é difícil perceber. Sabe quando não tem mais aquele olhar, aquela passada de mão boba, quando tomar banho juntos já deixou de ser gostoso? Segundo a especialista, seduzir deveria ser natural para o bem do casal — e, sim, requer dedicação.

Perder a admiração é outro sinal de que a relação esfriou. “Se você acha que ele é um bom parceiro, um bom profissional e na hora das adversidades se lembra por que estão juntos, é possível dar a volta por cima.”

Para Patricia, outro fator que sustenta um relacionamento é a compatibilidade de valores. “Você sempre vai dar seu melhor. Mas, no decorrer da relação, começa a mostrar seu lado menos legal”, complementa a especialista. A possessividade pode ser um deles. E a psicanalista alerta para o aumento desse controle e do ciúme com o crescimento das redes sociais. “As pessoas estão perdendo essa liberdade de serem elas mesmas, há muito controle do que você faz no mundo virtual.” Se essa possessão caminha para um comportamento mais agressivo, como um volume mais alto de voz, um grito, cabe a você cortar logo esse tipo de reação.

Permitir esse tipo de comportamento — e aí entra um xingamento, gritos — pode estar ligado à baixa autoestima. “A pessoa vai permitindo aquilo, se apega à insegurança de não se achar capaz de ser feliz sozinha e se sujeita por causa da dependência que tem do outro”, explica Patricia. Antes de deixar chegar a esse ponto, ela aconselha que o casal converse e esgote todas as possibilidades; retomar os momentos em que se apaixonaram e as coisas boas que existiam para ver se há resultados.

Entre amigos

Aquela amiga de anos é uma ótima companhia e vocês têm inúmeras histórias divertidas para contar. Mas de uns tempos para cá você percebe que ela só aparece para drinques; quando você precisa de colo ou de um conselho, ela some do mapa. Ou acontece de aquele amigo sair com a turma sem te chamar e ele sempre dá um jeito de plantar informações errada sobre você.

“A primeira pergunta que deve ser feita a você mesma é: para que serve essa relação tóxica? Em nome do que você se deixa abusar e não consegue sair dessa amizade?”, questiona a psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar, em São Paulo. Quando estamos em uma relação abusiva, precisamos descobrir o que é necessário romper em nós mesmas. “A pessoa se identifica com aquilo de certa forma. Senão, seria facílimo.”

Descobrir o que te aprisiona e ser o mais honesta possível é o movimento que deve ser feito. Pondere se você ganha ou perde mais e faça uma escolha a partir daí. Isso tem a ver com a sua história, de como você estabelece seus vínculos e se apega a uma coisa que não te faz bem. “Esse tipo de situação provavelmente se repete na sua vida”, diz Tai Castilho.

Acontece também de idealizar aquela amiga e depois descobrir que ela não era bem aquilo que você enxergou no início. “Dependendo da situação, se ela furou com você uma vez, use a sensibilidade. Também falhamos, é difícil medir a imperfeição dos outros”, diz Patrícia.

Não é segredo para ninguém que a segunda-feira é o dia nacional da preguiça, mas, se para você ela já se tornou um pesadelo e o ânimo para realizar suas tarefas no trabalho é zero, está na hora de rever se vale a pena continuar nesse emprego. “Quando o dia a dia já não é mais desafiador, se você está cansada da mesma função e sente falta de algo novo, é o momento de avaliar”, diz Isis Borge, gerente de divisão da consultoria de recrutamento Robert Half, em São Paulo.

Nessa situação, o autoconhecimento é essencial para ajudar no processo. “A primeira coisa é descobrir por que você está desmotivada, perceber o que te incomoda”, completa. Se falta desafio na rotina, é preciso encontrar quais atividades seriam instigantes para você. Mudar de departamento dentro da empresa pode ser uma saída — converse com seu chefe direto, ele deve ser o primeiro a saber.

“É mais fácil trocar de área na companhia em que você já está”, pondera Isis. Se você topar passar por essa transição de área, se planeje, procure um curso para ganhar capacitação e esteja disposta a descer alguns degraus.

Se a vontade vier, por exemplo, por causa de um possível assédio moral, saiba que você não deve ser penalizada por isso. “Deveria ser a última alternativa. Se isso for identificado, o problema pode ser resolvido, às vezes com uma conversa franca”, diz Isis. Não é fácil pedir demissão, é preciso coragem para tomar essa decisão. Mas, se a insatisfação estiver pesando e seu trabalho já não significa nada na sua vida, vá em frente.

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